23% dos jornalistas brancos ganham acima de R$ 10 mil; pretos são 7%

A desigualdade no jornalismo fica mais difícil de ignorar quando ela aparece no topo da folha de pagamento.

Na Pesquisa Nacional sobre Salários e Condições de Trabalho dos Jornalistas no Brasil, 23% dos jornalistas brancos com renda informada aparecem em faixas acima de R$ 10 mil. Entre jornalistas pretos, esse percentual é de 7,7%.

Não estamos falando de uma diferença pequena de distribuição. Estamos falando de quem consegue atravessar uma das principais barreiras de renda da profissão.

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Esse dado precisa ser lido com cuidado, mas não deixa de ser relevante. A pesquisa é independente, voluntária e online, então não pretende representar estatisticamente todos os jornalistas brasileiros. Ainda assim, ela ajuda a mostrar que o acesso às melhores remunerações no jornalismo não se distribui de forma igual.

O problema não está apenas em entrar na carreira. Está também em conseguir permanecer, crescer, ser promovido, liderar, circular nas redes certas e chegar aos lugares onde a remuneração muda de patamar.

A desigualdade aparece justamente em uma profissão que gosta de se enxergar como instrumento de leitura crítica da sociedade. O jornalismo cobre racismo estrutural, mercado de trabalho, desigualdade de renda, concentração de oportunidades e falta de diversidade em outros setores. Porém, também precisa olhar para dentro.

Se jornalistas pretos aparecem menos nas faixas acima de R$ 10 mil, precisamos questionar quem recebeu as primeiras oportunidades, quem teve mentoria, quem foi visto como liderança possível, quem teve margem para errar, quem foi indicado, quem conseguiu negociar melhor e quem não precisou abandonar a carreira antes de chegar à senioridade.

Também seria simplista tratar R$ 10 mil como sinônimo automático de conforto. Dependendo do vínculo, do regime de trabalho, da cidade, dos custos bancados pelo profissional e da ausência de benefícios, a renda bruta pode esconder muitas diferenças. Mas a faixa continua sendo um marcador importante porque separa uma minoria com mais acesso a remunerações altas de uma maioria concentrada em patamares mais baixos.

A desigualdade racial nas faixas mais altas de renda mostra que o futuro da profissão também depende de revisar seus filtros internos de acesso, promoção e valorização. O retrato completo está nos detalhes.

Para entender os recortes por vínculo, região, cargo, área de atuação e condições de trabalho, baixe o e-book completo da Pesquisa Nacional sobre Salários e Condições de Trabalho dos Jornalistas no Brasil.